O primeiro dia de desfile das escolas de samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro começou com 45 minutos de atraso devido à chuva. O Império Serrano abriu o evento às 22h de domingo (3), quando ainda chovia no Sambódromo da Marquês de Sapucaí.

Mais cedo, um temporal alagou ruas da cidade e por isso a organização optou por retardar o início dos desfiles para que o público conseguisse chegar ao Sambódromo.

Os destaques no primeiro dia ficaram por conta do Salgueiro e Viradouro. Desfilaram também Imperatriz Leopoldinense, Beija-Flor, Grande Rio, Império Serrano e Unidos da Tijuca.

Primeira escola a se apresentar neste domingo no sambódromo do Rio de Janeiro, abrindo a primeira noite de desfiles do Grupo Especial, o Império Serrano apresentou o enredo "O que é, o que é?", sobre o sentido e os rumos da vida. 

A força do samba - uma famosa composição de Gonzaguinha, lançada em 1982 - empolgou a plateia, mas a escola repetiu alguns erros do ano passado.

A escola apresentou fantasias e alegorias pobres e mal acabadas,  Apesar disso, o samba contagiou o público, como era previsto.

De volta à elite das escolas de samba do Rio após quatro anos na segunda divisão (da qual foi campeã em 2018), a Unidos do Viradouro foi a segunda escola a se apresentar. A escola apostou no aplaudido carnavalesco Paulo Barros, para falar sobre contos infantis sob a ótica de um adulto. O fio condutor foi um adulto revisitando os livros que sua avó lhe apresentava quando criança. 

A escola esbanjou luxo e empolgou o público, encantado com a teatralização e as alegorias humanas sempre usadas por Paulo Barros.

A Viradouro deu espetáculo e é séria candidata a retornar no Desfile das Campeãs, que ocorre no próximo sábado, dia 09.

A Grande Rio, de Duque de Caxias, foi a terceira escola a desfilar, já na madrugada desta segunda-feira. A agremiação apresentou o enredo "Quem nunca...? que atire a primeira pedra", em que faz uma crítica "às gafes, deslizes, viradas de mesa e ao famoso jeitinho brasileiro", segundo o próprio roteiro do desfile anuncia. 

O desfile foi melhor do que o do Império Serrano, mas não chegou a empolgar a plateia. A seu favor pesou, no entanto, a animação dos integrantes, que cantaram e pularam durante todo o desfile, ainda que não fossem acompanhados por quem assistia nas arquibancadas. A inovação ficou por conta do uso de drones com emojis na comissão de frente, numa alusão a Moisés, o profeta dos Dez mandamentos, em tempos de redes sociais. 

O experiente carnavalesco Renato Lage, fez um desfile técnico pela Grande Rio, mas ainda faltaram brilho e um enredo mais empolgante.

Quarta escola de samba a desfilar na primeira noite, o Salgueiro exaltou Xangô, divindade cultuada pelas religiões de matriz africana trazidas ao Brasil pelos escravos, como o candomblé.  

A vermelha e branca da Tijuca fez um desfile muito luxuoso e empolgante - só comparável, até então, à apresentação da Viradouro -, embalado por um samba que, embora difícil de cantar por conter várias expressões africanas, foi muito bem recebido pelo público. 

O competente carnavalesco Alex de Souza, mais uma vez criou fantasias e alegorias luxuosas e muito bem acabadas.

A empolgação fez com que a escola atravessasse a avenida no limite de 1h15, para o azar dos integrantes que aguardavam com apreensão pela passagem dos últimos carros já na área de dispersão. 

Além de contar a origem africana de Xangô, o enredo mostrou seus correspondentes no catolicismo, como são Jerônimo, são João Batista e são Pedro. 

O desfile também fez diversas referências à Bahia, berço do sincretismo religioso no Brasil, e ao enredo apresentado pelo Salgueiro há 50 anos - em 1969 a escola conquistou o quarto título de sua história com uma homenagem à Bahia, em enredo desenvolvido por Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues.

Atual campeã, a Beija-Flor foi a quinta escola a desfilar na primeira noite de desfiles. A escola de Nilópolis comemorou seus 70 anos revisitando seus principais enredos.

Sobrou luxo nas fantasias, faltou nas alegorias. 

O casal de mestre-sala e porta-bandeira, Claudinho e Selminha Sorriso, desfilou representando um casal de beija-flores. Seguiram-se referências aos enredos mais famosos ou importantes da escola, desde "Peri e Ceci", com que a escola ficou em 10º lugar na segunda divisão, em 1963, até "Monstro é aquele que não sabe amar! Os filhos abandonados da pátria que os pariu", vitorioso na elite em 2018.

Não faltaram "Sonhar com Rei dá Leão", e "Ratos e Urubus, Larguem minha Fantasia", que ficou famoso em 1989 por levar ao sambódromo uma alegoria do Cristo Redentor que, proibido pela Justiça de ser exibido, A referência a esse imbróglio tão marcante, no entanto, pode ter passado despercebida à maioria do público, porque em vez de reproduzir a famosa alegoria a Beija-Flor preferiu colocar ratos e mendigos sobre um carro alegórico.

Teve ainda referência a Roberto Carlos, cantor e compositor que virou enredo campeão em 2011, e uma ala inteira em homenagem a Pinah, destaque que ficou famosa em 1978 ao sambar com o príncipe Charles, da Inglaterra, durante uma visita dele ao Brasil. A própria Pinah desfilou como destaque de chão, mas, espremida entre duas alas, teve pouco espaço para ser reverenciada.

Embora não tenha empolgado, a escola encerrou o desfile confiante: vários componentes entoaram gritos de "bicampeã".

A Imperatriz Leopoldinense levou a história do dinheiro para a Marquês de Sapucaí. Jogou cerca 800 mil notas falsas de R$ 100 à plateia, coloriu a avenida de dourado, mas não foi agraciada pela sorte em seu desfile, o penúltimo do primeiro dia do Grupo Especial. Com pouco mais de dez minutos de apresentação, o carro abre-alas 'A lenda do rei Midas' parou ainda na concentração, comprometendo a harmonia. 

Com o enredo 'Me dá um dinheiro aí', a escola de Ramos apostou na crítica à ambição desenfreada. Para contar essa história, retornou aos tempos de escambo entre portugueses e índios; passeou pela escravidão, ao trazer um navio negreiro para a Sapucaí; tratou do consumo desenfreado proporcionado pelo cartão de crédito. Mas pecou nos recursos estéticos e acabamento - as fantasias estavam mal acabadas e pouco criativas. 

A exceção foi a comissão de frente que, com um Robin Hood 'voador' sobre a plateia, conseguiu animar. Outro destaque foi a musa Ketula Mello. Ela recorreu a uma careca falsa e pela primeira vez desfilou com os seios nus para viver uma guerreira africana.  

Sétima e última escola a se apresentar na primeira noite de desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro, já no amanhecer desta segunda-feira, a Unidos da Tijuca fez uma bela apresentação com o enredo sobre o pão. 

A exibição marcou o retorno do carnavalesco e diretor de carnaval Laíla à escola do Borel, 

A Tijuca explorou bastante o significado religioso do pão, retratando a santa ceia no carro abre-alas e várias outras passagens bíblicas em alas e encenações - uma das mais impactantes representou o calvário de Cristo antes de ser crucificado. Não faltaram menções ao "pão que o diabo amassou" e ao pão de santo Antônio, que segundo a crença católica deve ser guardado para que nunca falte alimento no lar.

A escola esbanjou luxo, com alegorias e fantasias muito bem acabadas, e aproveitou a iluminação natural do amanhecer, que tornou mais visíveis os detalhes. O transcorrer do desfile também foi bastante satisfatório, sem correria nem imprevistos. Ao final, componentes e o público se uniram em um coro de "é campeão.

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